Baby steps para começar. Olha, desenhei uns fluxogramas que podem ajudar, quem sabe. Esse aqui, por exemplo, é para pegar a carteira que você esquece às vezes dentro do carro. Veja bem: a porta do motorista está muito próxima à pilastra? [Sim/Não]. Se sim, você abre a outra porta e pega a carteira por ela. Ei, não vai se esgueirar pelo vão de quinze centímetros, ainda mais com essa pança aí, e tentar pescar a carteira com as pontas dos dedos porque tudo o que está dentro dela vai acabar caindo, entendeu? Cada um desses fluxogramas está ligado a um tutorial em vídeo, então qualquer coisa você volta nele depois. Tá aqui o meu cartão, também.

Esse outro aqui tem a ver com impressão de mapas do Google Maps. Eu sei, e todo mundo sabe, da sua desorientação espacial: posso te indicar depois uma outra pessoa que pode te ajudar com isso. Minha função, por enquanto, é só te orientar a pensar antes de fazer as coisas; tentar tomar as decisões certas. Sei que é difícil e tal, mas dá, acredito. Já peguei um ou dois casos piores que o seu. Minha hora de trabalho é cara, então vamos mais rápido, tá anotando? Começa aqui: Você sabe o caminho? [Sim/Não]. Vamos supor – oh – que não. Segue então essa linha aqui. Você colocou as ruas de origem e destino no Google Maps corretamente? [Sim/Não]. Pensemos que, em um lampejo de lucidez – desculpe – esses passos estejam ok. Chegamos no terceiro: Você imprimiu o passo a passo, o “Como chegar”? [Sim/Não]. Como eu sei que normalmente a resposta é não, o resultado não vai ser essa caixinha de “Beleza, você chegou no lugar certo”, e sim este de “Você já perguntou em mais de um posto de gasolina e continua perdido”. Volta por essa linha até funcionar.

Não se assuste com essa pasta cheia de fluxogramas, você pode ir estudando aos poucos. Claro, todos eles caem na prova, e cada um dos seus dias é repleto de provas-relâmpago e de provas finais. A sua meta de redução de vacilos em janeiro é 50%, 55% em fevereiro e – vamos torcer para isso – 95% em dezembro. Suas boas intenções não são critério para aliviar sua nota. Lembre-se: qualquer coisa me dá o toque por messenger, facebook, celular. É bem fácil me achar. Eu sou o seu mantra pra 2011.

O sul do Chile para mim será a a fria caminhada noturna ao redor do lago Llanquihue, a vista do Osorno pela janela de manhã e do alto de um teleférico sem qualquer proteção nem contra o sol, nem contra a queda e o medo de.

Serão as lendas e a mitologia da ilha de Chiloé, será o passeio de metrô em Santiago com início na estação Los Leones, bairro de Providencia; ameaça de bomba na superfície; artefato suspeito com jeito de televisão deixada na praça na véspera do Natal; o flanar até a Plaza de Armas e de volta; a caricatura feita de mim e do meu irmão logo na noite de chegada, comparação possível com os Gallaghers se lhes apetecesse sentar em uma mesinha na rua, comer empanadas e beber suco de framboesa como bons amigos.

Será, ainda, o descanso na grama à beira do rio Mapocho, filete de água que em nada lembra o Sena, o Tâmisa e tantos outros que não conheço e que, daqui, são gloriosos. Os rascunhos e esboços que fiz de Puerto Varas e de Frutillar, que ficaram no meu caderninho comprado às pressas em Confins, também merecem menção por terem lançado a pedra fundamental de um saudável hábito: tentar desenhar os arredores num arremedo de Le Corbusier.

Nesse panteão de boas memórias, as cervejas artesanais e a batata,  seja frita ou em purê, bem como as dezenas de pinguins que  encontraram nas ilhotas do Pacífico um lugar tão aconchegante para  se exibir, ah -

Passei o Natal em um quarto de hotel, me empanturrando de room service, mas enfim – navidad foi buena.

Trecho de “Atlas”, de Jorge Luis Borges e María Kodama.

“Antes de uma viagem, olhos fechados, unidas as mãos, abríamos ao acaso o atlas e deixávamos que as gemas de nossos dedos adivinhassem o impossível, a aspereza das montanhas, a higidez do mar, a mágica proteção das ilhas. A realidade era um palimpsesto da literatura, da arte e das recordações de nossa infância, tão semelhante em sua solidão.

Roma para mim será sua voz recitando as Elegias de Goethe, e Veneza para você o que eu lhe transmiti num entardecer, em San Marco, ouvindo um concerto. Paris será você criança, teimoso, trancado num hotel comendo chocolate enquanto lia Hugo, sua maneira de descobrir Paris; para mim, nossas lágrimas quando vi no alto da escadaria do Louvre a Vitória da Samotrácia, a estátua sobre a qual meu pai me ensinou a beleza. A beleza era a harmonia materializada, era ter conseguido o impossível, deter a brisa do mar no movimento das dobras da túnica para a eternidade. O deserto foi a batalha de Ondurmã e Lawrence e a mística do silêncio, até aquela noite em que ao lado das pirâmides você me ofereceu um império de palavras, ‘modificou o deserto’ e revelou que a lua era meu espelho.”

colocaram uma câmera no elevador do meu prédio. então foi por isso que os condôminos ficaram sem transporte coletivo ontem? não sei se isso vai ter alguma influência no meu comportamento como passageiro… ontem, na inauguração, foram só umas duas olhadinhas de soslaio. sei que me falta alguma etiqueta; sei que faço careta quando me olho no espelho; sei que não é o fato de eu estar sendo visto e julgado em um monitor que vai me fazer dar bom dia e perguntar sobre o portão da garagem. espaço x tempo: lá são seis andares; aqui, onde trabalho, são nove. e, no quinto e no sexto, há um daqueles grandes escritórios de adevogados que, raios me partam, só pode ter um gerador de improbabilidade infinita de estagiários lá dentro, mais de um ano na empresa e eu nunca subi ou desci duas vezes com o mesmo. ainda que todos sejam single-serving friends, no final das contas, entendo que ser simpático dentro dos dois metros quadrados deve de fato fazer algum bem ao coração e ao espírito e não custa um dia tentar mudar.

eu costumava matar o coordenador do colégio nas minhas redações. calma, nunca pingou uma gota de sangue daquelas páginas. era uma parada meio assim de protesto, saca? ou uma falta recorrente de assunto, vai saber (deve ser por isso que não emplaquei nenhum texto no livro da escola.) céus, hoje me parece até impensável escrever uma lauda às sete da manhã, mas eu era bom nisso, era mesmo. curtia criar siglas e acrônimos com o nome do infausto coordenador, expediente que me safou de ter sido condenado ao apedrejamento público no pátio do recreio ao pôr do sol. Tenebroso Oficial da Moralidade, eis o que és. veja como a vida dá voltas: é para esse mandrião que eu pago, aos vinte e sete anos, o dinheiro da pelada de quinta. sustento os vícios sórdidos que ele com certeza deve ter: bingo. dardos. fanzines underground. taxidermia. criação de codornas de briga. flautas peruanas. bombachas. tamancos. turma de bridge às sextas. bonecas de porcelana. livros da taschen com pintos. quem sabe? no fundo, me arrependo de não ter guardado esses textos, pequenos arroubos de insubordinação e transgressão juvenil, num invólucro plástico embalado à vácuo. podia ter feito com eles uma cápsula do tempo para ser aberta no dia três de dezembro de dois mil e dez.

férias! meu pescoço se fez de catapulta e arremessou minha cabeça a duas semanas a partir de hoje. espero que não tenha ferido algum civil ou caído no meio da sala de jantar de uma família que só queria fazer sua última refeição do dia em paz. o pai, a mãe, os dois pimpolhos catarrentos, o bife de frango com purê de batata, arroz à grega, feijão e um pouco do ragú de cordeiro que o pai resolveu trazer embalado do restaurante chique porque a mãe pediu, não gostou e ficou com pena de deixar estragar. ah, o verão: em breve, vou poder fazer duas, cinco, doze horas de almoço, comer como se faz lá para os lados do Mediterrâneo, sem pressa, só curtindo o momento sem precisar pedir a conta porque alguém precisa terminar aquele projeto que foi cadastrado ontem no sistema, aquela correria de cliente que conseguiu se enrolar com a marcação das próprias férias e, por isso, resolveu descontar nos parceiros que estão aqui na brodagem.

dias quentes assim dão dor de cabeça porque secam até a água que tem dentro das vistas. isso aqui não é um cravo na pele, e sim uma varinha de rabdomante fincada num poro, esquecida. desistida. cada processo corporal fica tão preguiçoso como uma repartição de amanuenses voltando de um rodízio. não estivesse a temperatura assim pungente, poderia dizer que o responsável pelo controle da digestão teria abandonado a tarefa para ir pescar. nem foi assim um almoço tão pesado, o de hoje, mas sinto que meu corpo se recusou a empreender qualquer tipo de esforço, mesmo que para isso tenha feito cortes energéticos até no metabolismo basal. e cá estou eu a finalizar meu domingo com a cabeça pendente, na altura do peito, babando nos meus pés e joelhos para ver se rola uma hidratada.

Retribuiu com um levantar de orelhas o meu sorriso.

A coçadinha na cabeça nada teve a ver com a minha chegada. Contudo, de tão libertadora, me comoveu. Tem nome de gordo, ele: Sancho. O mais parrudo de uma ninhada de oito. Seu porte lhe permitiria se engalfinhar com um porco adulto e vencer por pontos, se quisesse. Porém, enquanto isso não acontece, sem urgência, ele se levanta. Estica uma perna, estabiliza-se; estica a outra. Movimentos encadeados tal como em uma coreografia, mas sem a preocupação estética. Deixa para mais tarde o ato de se pôr de pé. Com a cabeça aninhada entre as patas, seus olhos esquadrinham a paisagem à frente. – Sancho! – a voz e os pés do dono se interpõem à visão de uma centopeia, a mesma que ontem ensaiava uma escalada pela mureta branca, os passos vacilantes ao mesmo modo. Distrações são poucas: a ração servida de manhã e à noite, antes de dormir; o som dos passos na área de serviço; o cheiro de carne assada; os visitantes artrópodes, centípedes, dípteros, aracnídeos, coleópteros; os gritos do dono que os ouvidos de Sancho capta de forma seletiva, pois só interrompem o que realmente lhe interessa, que é contemplar. Há dois dias, cai uma garoa fina que lhe entristece e faz com que suas patinhas escorreguem e ele olhe de soslaio, envergonhado; em ocasiões assim, prefere se recolher. Vê tão pouco do mundo lá fora que se sente como massa de pão sem fermento dentro de uma fôrma de ferro.

Quando me lembro da rapidez com que escrevia boas redações no colégio, penso que meus neurônios hoje são como pequenas galáxias se afastando umas das outras em um universo em expansão. Tudo ficou longe. (Comparação que, se considerado o tamanho da minha cabeça, faz total sentido.) Hoje eu acredito que as ideias e os lampejos saem de um hemisfério às seis da manhã e só chegam no outro às duas da tarde, cansados após três ônibus, duas balsas e um táxi lotação. Meu cérebro ficou endurecido de tanto trabalhar e o hipocampo tá que nem a estação da Sé. Preciso que algum ser de mandíbula realmente invejável o mastigue e cuspa de volta só depois formadas todas as dobras, rugas e calosidades que se veem nos livros de anatomia.

Pra mim, roupa comprada é pra se usar na hora e fruta é pra levar pra casa; meio errado do ponto de vista das prioridades, se for ver. Mas parece que minhas roupas sempre envelhecem dentro do provador e me convencem de que sua vida está prestes a acabar ali, que a missão foi cumprida como a daquele mensageiro grego que correu até a cidade de Maratona, anunciou a vitória e caiu. No fim, só me resta depositar a camiseta velha e exausta no saquinho onde esmaecerá lenta e solenemente durante a volta para casa, sonhando com a lavagem que lhe dará sobrevida.

É assim com camisetas e também calças e tênis, mas nunca com cuecas e meias. Deve ser porque vêm em caixinhas embaladas com várias unidades, como frutas.

Fico pensando qual o percentual de pessoas que vão ao shopping renovar o guarda-roupas e voltam usando as peças que compraram; e também que, quando compro um perfume, não vou ao banheiro borrifá-lo antes de validar meu ticket de estacionamento. Talvez, pelo fato do frasco de perfume vazio ter dado os seus últimos suspiros lá longe, no banheiro, e não comigo, na cabine da loja.

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